
Arménio Vieira
escritor
Prémio Camões 2009.
Arménio Adroaldo Vieira e Silva (Praia, Santiago, 24 de janeiro de 1941)
Elemento activo da geração de 1960, colaborou em SELÓ - folha dos novíssimos, Boletim de Cabo Verde, revista Vértice (Coimbra), Raízes, Ponto & Vírgula, Fragmentos, Sopinha de Alfabeto, entre outras publicações.
Foi redactor do extinto jornal Voz di Povo.
Publicações:
• 1981 - Poemas - África Editora - Colecção Cântico Geral. - Lisboa.
• 1990 - O Eleito do Sol - Edição Sonacor EP - Grafedito - Praia.
• 1998 - Poemas (reedição) - Ilhéu Editora - Mindelo.
• 1999 - No Inferno - Centro Cultural Português - Praia e Mindelo.
• 2006 - MITOgrafias - Ilhéu Editora - Mindelo.
Origem: Wikipédia

N0 Inferno (Resumo):
Fonte aqui

LISBOA - 1971
Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar./
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos/ no meio de guardas e aviões da Portela.
Em verdade éramos o gado mais pobre/ d'África trazido àquele lugar / e como folhas varridas pela vassoura do vento / nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto / da mulher que vendia maçãs / e queria saber donde... ao que vínhamos / descobrimos o logro a circular no coração do Império. /
Porém o desencanto, que desce ao peito / e trepa a montanha, / necessita da levedura que o tempo fornece. /
E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera, / fomos seguindo nosso destino / naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno

CANTO FINAL FINAL OU AGONIA DUMA NOITE INFECUNDA
Como a flor cortada rente e desfolhada / ou os olhos vazados da criança / e o seu fio de pranto tênue e impotente / assim a noite caminha com os astros todos em vertigem / até que se atinge o ponto da mudez / a pesada mó triturando a sílaba / a garganta com as cordas dilaceradas / e uma lâmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida /
Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro / tanto assim que a flor desfeita / não embala o coração do poeta / oh não / porque a flor defunta / se voa / não sobe nunca / e só dura /o espaço breve duma nota /
Assim o canto se detém imóvel / como se da flauta / falhando súbito / na boca do poeta / ficasse o hiato / ou a saliva / de um tempo devassado por insectos cor de cinza /
A voz suspensa e negada / cede a vez à letra amorfa / inscrita no silêncio / com seu peso / de chumbo e olvido /acaba o poema / e um ponto final selando tudo.
Arménio Vieira e o Prémio Camões
-O reconhecimento da consolidação do processo de afirmação identitária...
Fátima Fernandes*
Arménio Vieira, emerge na Literatura Cabo-Verdiana, integrando a geração dos novíssimos e assinando uma produção que serviu de mote para a demarcação periodológica da contemporaneidade na literatura cabo-verdiana ao lado de Kaoberdiano Dambará, TTTiofe, Osvaldo Osório e Corsino Fortes.
A emergência da produção literária deste autor situa, sem dúvida, o momento paradigmático, em que a Literatura cabo-verdiana protagoniza o “livrar-se” do fantasma operativo da cabo-verdianidade, traduzindo a vontade literária de ferir e questionar a pretensa originalidade da expressão literária “arrecadada” pela produção que situa o período claridoso, legitimando assim a manifestação de um ser e sentir Cabo Verde diferente no espaço universal.
E foi O Eleito do Sol que inaugurou, no domínio da prosa alicerçadamente literária, a vontade de edificar um novo sistema de valores, no interior de uma ordem igualmente nova, processando-se num horizonte muito mais alargado da intelectualidade, esta revelada na necessidade de reinterpretação do distanciamento da realidade, focalizada num novo centramento estético, poético e ético, em conteúdos que impulsionaram uma actividade fundadora sistemática, porém afastada da prática do discurso ora telúrico ora de agressividade panfletária que então se fazia.
A obra de Arménio Vieira, manifesta uma diversidade assente na exploração impressionante dos sentidos da metáfora (da imagem que se funde na alegoria de forma exemplar), que se desdobra e se multiplica, numa leitura complexa com que o autor se permite o questionar da colocação do homem no espaço universal, bem como pela representação estética que delineou o emergir de uma Literatura nova, pujante e inquiridora. Assim, a obra representa, desde as suas primeiras manifestações, a consolidação do processo de afirmação estética e identitária cabo-verdiana iniciado por autores como Eugénio Tavares e Pedro Cardoso.
A atribuição do Prémio Camões a este escritor escritor cabo-verdiano do ontem recente, cuja obra que se completa no indefinido, entre a exploração do texto e a do pensamento, quer no domínio da poesia quer no da ficção, afigura-se-nos justa e apropriada, pelo reconhecimento da representatividade da mesma no espaço literário cabo-verdiano e na contemporaneidade do universo lusófono em que tal prémio se afirma. Este reconhecimento certamente soube valorizar o exercer de uma reinvenção permanente de espaços e personagens que questionam o papel do homem intemporal que emerge num discurso e numa produção de tom inovador, que nada têm a ver com os problemas específicos de Cabo Verde, num dizer construído por um léxico audacioso, alegórico e de imagética simbólica, numa clara agressividade verbalizada, em que a uma estética do dizer se associa o imaginário surrealista.
De O Eleito do Sol a No Inferno, a intenção ficcional ultrapassa a observação do real, o espaço acaba por constituir-se no palco de uma interrogação à vida de e em Cabo Verde, dentro do dilema aparentemente sem solução entre o Ser, isto é a essência de se aceitar como Homem, e o Estar, ou melhor, o parecer ajustado a contextos, significados e circunstâncias impostas à configuração de um perfil identitário. O significado de tal dilema será o ponto de partida para a geração de “novos significados”, num recuperar da osmose cosmopolita de João Vário e da ruptura discursiva de Corsino Fortes, convidando o leitor a ingressar, imperceptivelmente, num mundo de ilusão a que Mitografias deu corpo.
Pela representação estética da novíssima literatura cabo-verdiana, numa obra que há muito vem consolidando o processo de afirmação identitária, a atribuição deste prémio deverá constituir para Cabo Verde o reconhecimento do papel que os contemporâneos como Arménio Vieira assinaram e assinam no sentido da afirmação da consciência identitária e literária, a merecer uma leitura atenta para a construção desta nação que hoje se edifica no mundo do outro que nos interpela. Bem haja!
*Professora de Literatura Cabo-Verdiana