Thursday, June 4, 2009


Arménio Vieira
escritor

Prémio Camões 2009.

Arménio Adroaldo Vieira e Silva (Praia, Santiago, 24 de janeiro de 1941)

Elemento activo da geração de 1960, colaborou em SELÓ - folha dos novíssimos, Boletim de Cabo Verde, revista Vértice (Coimbra), Raízes, Ponto & Vírgula, Fragmentos, Sopinha de Alfabeto, entre outras publicações.

Foi redactor do extinto jornal Voz di Povo.

Publicações:

• 1981 - Poemas - África Editora - Colecção Cântico Geral. - Lisboa.
• 1990 - O Eleito do Sol - Edição Sonacor EP - Grafedito - Praia.
• 1998 - Poemas (reedição) - Ilhéu Editora - Mindelo.
• 1999 - No Inferno - Centro Cultural Português - Praia e Mindelo.
• 2006 - MITOgrafias - Ilhéu Editora - Mindelo.

Origem: Wikipédia



N0 Inferno (Resumo):

«[...] imaginei uma personagem enclausurada, anónima, ou quase anónima, e sem memória. Dei-lhe um enigma a deslindar - o da própria identidade - e um razoável acervo de livros pelos quais ele, despojado do resto, se reconheceu como possuidor de muitas leituras. [...] No que respeita ao autor - eu, neste caso -, consciente ou inconscientemente, pus-me a par da minha personagem, isto é, fui ficcionando aos saltos, marimbando na lógica e no encadeamento natural dos acontecimentos, umas vezes com base em ocorrências de natureza autobiográfica e outras vezes a partir de ideias e motivos tomados de empréstimo a uma vasta literatura pretérita. [...]» (A. V., in «Nota Prévia».) Robinson - convencionalmente o nome da personagem - é de facto uma multiplicidade de personagens cujos nomes mudam ao sabor do escritor que Arménio Vieira «evoca». Robinson deambula pela literatura. Mas... que deambulação? Que literatura? Que ficção? Em que ilha se tornou náufrago? Terá cada extrapolação um significado, um simbolismo? Será que Robinson personagem-autor não nos mostra o reverso do mundo dito dos livros e nos conduz à não-literatura, ao não romance e ao desnudar das convenções literárias?

Fonte aqui


LISBOA - 1971


Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar./
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos/ no meio de guardas e aviões da Portela.
Em verdade éramos o gado mais pobre/ d'África trazido àquele lugar / e como folhas varridas pela vassoura do vento / nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto / da mulher que vendia maçãs / e queria saber donde... ao que vínhamos / descobrimos o logro a circular no coração do Império. /
Porém o desencanto, que desce ao peito / e trepa a montanha, / necessita da levedura que o tempo fornece. /
E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera, / fomos seguindo nosso destino / naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno




CANTO FINAL FINAL OU AGONIA DUMA NOITE INFECUNDA


Como a flor cortada rente e desfolhada / ou os olhos vazados da criança / e o seu fio de pranto tênue e impotente / assim a noite caminha com os astros todos em vertigem / até que se atinge o ponto da mudez / a pesada mó triturando a sílaba / a garganta com as cordas dilaceradas / e uma lâmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida /
Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro / tanto assim que a flor desfeita / não embala o coração do poeta / oh não / porque a flor defunta / se voa / não sobe nunca / e só dura /o espaço breve duma nota /
Assim o canto se detém imóvel / como se da flauta / falhando súbito / na boca do poeta / ficasse o hiato / ou a saliva / de um tempo devassado por insectos cor de cinza /
A voz suspensa e negada / cede a vez à letra amorfa / inscrita no silêncio / com seu peso / de chumbo e olvido /acaba o poema / e um ponto final selando tudo.


Arménio Vieira e o Prémio Camões

-O reconhecimento da consolidação do processo de afirmação identitária...

Fátima Fernandes*

Arménio Vieira, emerge na Literatura Cabo-Verdiana, integrando a geração dos novíssimos e assinando uma produção que serviu de mote para a demarcação periodológica da contemporaneidade na literatura cabo-verdiana ao lado de Kaoberdiano Dambará, TTTiofe, Osvaldo Osório e Corsino Fortes.
A emergência da produção literária deste autor situa, sem dúvida, o momento paradigmático, em que a Literatura cabo-verdiana protagoniza o “livrar-se” do fantasma operativo da cabo-verdianidade, traduzindo a vontade literária de ferir e questionar a pretensa originalidade da expressão literária “arrecadada” pela produção que situa o período claridoso, legitimando assim a manifestação de um ser e sentir Cabo Verde diferente no espaço universal.
E foi O Eleito do Sol que inaugurou, no domínio da prosa alicerçadamente literária, a vontade de edificar um novo sistema de valores, no interior de uma ordem igualmente nova, processando-se num horizonte muito mais alargado da intelectualidade, esta revelada na necessidade de reinterpretação do distanciamento da realidade, focalizada num novo centramento estético, poético e ético, em conteúdos que impulsionaram uma actividade fundadora sistemática, porém afastada da prática do discurso ora telúrico ora de agressividade panfletária que então se fazia.
A obra de Arménio Vieira, manifesta uma diversidade assente na exploração impressionante dos sentidos da metáfora (da imagem que se funde na alegoria de forma exemplar), que se desdobra e se multiplica, numa leitura complexa com que o autor se permite o questionar da colocação do homem no espaço universal, bem como pela representação estética que delineou o emergir de uma Literatura nova, pujante e inquiridora. Assim, a obra representa, desde as suas primeiras manifestações, a consolidação do processo de afirmação estética e identitária cabo-verdiana iniciado por autores como Eugénio Tavares e Pedro Cardoso.

A atribuição do Prémio Camões a este escritor escritor cabo-verdiano do ontem recente, cuja obra que se completa no indefinido, entre a exploração do texto e a do pensamento, quer no domínio da poesia quer no da ficção, afigura-se-nos justa e apropriada, pelo reconhecimento da representatividade da mesma no espaço literário cabo-verdiano e na contemporaneidade do universo lusófono em que tal prémio se afirma. Este reconhecimento certamente soube valorizar o exercer de uma reinvenção permanente de espaços e personagens que questionam o papel do homem intemporal que emerge num discurso e numa produção de tom inovador, que nada têm a ver com os problemas específicos de Cabo Verde, num dizer construído por um léxico audacioso, alegórico e de imagética simbólica, numa clara agressividade verbalizada, em que a uma estética do dizer se associa o imaginário surrealista.

De O Eleito do Sol a No Inferno, a intenção ficcional ultrapassa a observação do real, o espaço acaba por constituir-se no palco de uma interrogação à vida de e em Cabo Verde, dentro do dilema aparentemente sem solução entre o Ser, isto é a essência de se aceitar como Homem, e o Estar, ou melhor, o parecer ajustado a contextos, significados e circunstâncias impostas à configuração de um perfil identitário. O significado de tal dilema será o ponto de partida para a geração de “novos significados”, num recuperar da osmose cosmopolita de João Vário e da ruptura discursiva de Corsino Fortes, convidando o leitor a ingressar, imperceptivelmente, num mundo de ilusão a que Mitografias deu corpo.
Pela representação estética da novíssima literatura cabo-verdiana, numa obra que há muito vem consolidando o processo de afirmação identitária, a atribuição deste prémio deverá constituir para Cabo Verde o reconhecimento do papel que os contemporâneos como Arménio Vieira assinaram e assinam no sentido da afirmação da consciência identitária e literária, a merecer uma leitura atenta para a construção desta nação que hoje se edifica no mundo do outro que nos interpela. Bem haja!

*Professora de Literatura Cabo-Verdiana